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São Paulo domina o topo do saneamento nacional, mas o desafio agora está fora da área da Sabesp

Franca, São José do Rio Preto, Campinas e Santos alcançaram a nota máxima no Ranking do Saneamento 2026. Por trás do topo paulista, o esgoto tratado, as perdas de água e a fiscalização do novo ciclo de investimentos definem o que vem a seguir.

Quem olha só o placar do Ranking do Saneamento 2026 vê um estado imbatível. Franca, São José do Rio Preto, Campinas e Santos alcançaram a nota máxima, e outras cinco cidades paulistas completam a lista das 20 melhores do país. Quem abre os indicadores encontra o que o placar não mostra. A capital, 18ª colocada, atende 99,98% da população com água e 99,26% com coleta de esgoto, mas tem índice de tratamento de 66,32%. É o menor entre as 20 primeiras cidades do ranking e praticamente igual à média dos 100 maiores municípios (64,42%).

O levantamento é do Instituto Trata Brasil (organização que monitora o setor) e da GO Associados, com dados do SINISA, o sistema de informações do Ministério das Cidades, ano-base 2024. Pela primeira vez em 18 edições, as quatro primeiras colocadas empataram na pontuação máxima, e todas são paulistas. Segundo o instituto, as quatro já estão universalizadas.

O desempenho tem lastro financeiro. São Paulo respondeu por R$ 34,6 bilhões, ou 30,8% dos R$ 112,6 bilhões investidos em saneamento no país entre 2020 e 2024. Desde 2024, a Sabesp é uma empresa privatizada, com contrato que prevê universalização até 2029. Em 16 de setembro, a Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) multou a companhia em R$ 29,9 milhões por falhas em esgoto e metas não cumpridas. E o governo prepara, para depois das eleições, o leilão do Universaliza SP, que levará concessões a 146 municípios fora da área da Sabesp.

Os números por trás do topo pedem mais cautela. Entre as nove paulistas do top 20, só três passam de 90% de tratamento de esgoto, e sete respeitam o teto de 25% de perdas de água. O investimento explica pouco: Franca lidera aplicando R$ 72,93 por habitante ao ano, enquanto Praia Grande, que investiu R$ 572,87, aparece em 22º. Na outra ponta do estado, Bauru (79º) e Mogi das Cruzes (67º) mostram que a mesma São Paulo dos primeiros lugares convive com cidades longe do topo.

Há um limite importante: o ranking fotografa 2024, antes de o novo ciclo de investimentos aparecer nos indicadores. A pergunta que o setor passa a fazer é se o dinheiro anunciado e a nova regulação vão se converter em esgoto tratado, e quando isso ficará visível nos dados.

Contexto: o que o ranking mede

O ranking combina três dimensões: nível de atendimento, melhoria do atendimento e nível de eficiência. O parâmetro legal é o Marco Legal do Saneamento (Lei 14.026/2020), que fixa 99% de abastecimento de água e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033. Para as perdas na distribuição (água produzida que não chega ao consumidor, por vazamentos, ligações irregulares ou falhas de medição), a Portaria 490/2021 define dois parâmetros: 25% e 216 litros por ligação ao dia.

O topo é paulista, e plural

O modelo de prestação varia entre os primeiros colocados: companhia estadual (Sabesp, em Franca e Santos), autarquia ou empresa municipal (SeMAE, em São José do Rio Preto; SANASA, em Campinas; DAE, em Jundiaí) e concessão privada (BRK, em Limeira). Os dados não permitem atribuir o resultado a um modelo específico.

O gargalo está no esgoto

O tratamento é o indicador em que as melhores cidades paulistas mais tropeçam. Só Franca (95,98%), São José do Rio Preto (90,44%) e Jundiaí (94,78%) passam de 90%. Nas perdas, o quadro é melhor: sete das nove ficam abaixo do teto de 25%. São José dos Campos (32,13%) e Jundiaí (26,43%) o ultrapassam.

A leitura muda quando se olha o segundo parâmetro da Portaria, as perdas por ligação. A capital cumpre o teto percentual (24,46%), mas perde 310,72 litros por ligação ao dia, acima dos 216 de referência. O mesmo ocorre em São José dos Campos (303,06) e Jundiaí (329,43). Franca, Santos, Campinas, São José do Rio Preto, Limeira e Taubaté ficam abaixo de 216.

O diagnóstico de fundo é nacional. A presidente-executiva do Trata Brasil, Luana Siewert Pretto, afirmou na divulgação que o tratamento de esgoto é o aspecto mais distante da universalização no país.

Araçatuba na régua do ranking

Araçatuba (207,8 mil habitantes) não integra o ranking, que avalia só os 100 maiores municípios, mas os dados do SINISA 2024 permitem comparar indicador a indicador com as paulistas do topo. O serviço de água e esgoto é prestado por concessão à SAMAR (Soluções Ambientais de Araçatuba), faz parte do Grupo GS Inima, em contrato firmado em 2012.

A cidade atende 98,3% da população com água, acima da média do estado (97,4%, segundo o Instituto Água e Saneamento) e dos 100 maiores (93,55%). Na coleta de esgoto, chega a 97,6%, contra 93,3% do estado e 76,97% dos maiores. Entre as dez cidades da tabela, ocuparia o 8º lugar em água e o 6º em coleta. No tratamento, o índice de 94,0% seria o terceiro maior do grupo, atrás de Franca (95,98%) e Jundiaí (94,78%) e à frente de São José do Rio Preto (90,44%).

Os pontos de atenção estão nas perdas e no investimento. As perdas na distribuição somam 25,0%, no limite do teto da Portaria 490/2021 e abaixo da média estadual (33,6%). A fonte arredonda o valor, e a posição exata em relação ao teto depende da segunda casa decimal. O investimento foi de R$ 107,10 por habitante em 2024, todo feito pelo prestador. É menos da metade dos R$ 225 do PLANSAB e cerca de 21% abaixo da média dos 100 maiores no mesmo ano (R$ 135,89).

Quem subiu e quem caiu

Entre 2025 e 2026, São José dos Campos subiu 11 posições (de 27º para 16º), segundo o Trata Brasil, pela combinação de avanço no atendimento e queda das perdas. Taubaté subiu sete (de 17º para 10º). Guarulhos avançou 13, com melhora nos indicadores de água, coleta e tratamento.

Do outro lado, Santo André perdeu 12 posições (de 22º para 34º), com redução do investimento por habitante e aumento das perdas. Piracicaba recuou 11 (de 24º para 35º) por queda no atendimento de água e por um corte de R$ 80 por habitante no investimento, embora já tenha universalizado a coleta e o tratamento de esgoto.

Mais dinheiro, nem sempre mais posição

Entre os 27 paulistas, a relação entre gasto e colocação é fraca. Franca lidera com R$ 72,93 por habitante ao ano porque já universalizou os serviços. Praia Grande investiu R$ 572,87 e está em 22º. Onze dos 27 ficaram abaixo de R$ 100 por habitante. Só três (Praia Grande, Guarujá e São Bernardo do Campo) superaram os R$ 225 que o Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB) aponta como necessários para universalizar até 2033.

Na base paulista do ranking, Bauru (79º) investiu R$ 23,94 por habitante e tem subnota de 0,36 (em escala de 0 a 10) em tratamento de esgoto. A cidade teve uma concessão de esgoto de R$ 1,2 bilhão contratada em 2025, segundo o Trata Brasil. Mogi das Cruzes (67º) investiu R$ 58,63. O sócio da GO Associados, Gesner Oliveira, alertou na divulgação que as médias do setor costumam mascarar a heterogeneidade: cidades com bons indicadores seguem se modernizando, enquanto outras ficam estagnadas.

O novo contrato e a fiscalização

Com a desestatização, a Arsesp passou a fiscalizar uma concessão que abrange 374 municípios e cerca de 31 milhões de pessoas, segundo BNDES e Radar PPP, citados pelo Trata Brasil. O contrato fixa a universalização para 31 de dezembro de 2029, quatro anos antes do prazo legal. Dois fatores ajustam a tarifa: o Fator Q, de qualidade, e o Fator U, de universalização.

Segundo o governo estadual, a Sabesp investiu R$ 15,2 bilhões em 2025, 120% a mais que os R$ 6,9 bilhões do ano anterior, e prevê R$ 70 bilhões até 2029. São números oficiais, sem auditoria independente. Os percentuais de 87% (água), 77% (coleta) e 71% (tratamento) aparecem, conforme a fonte, ora como metas do período, ora como resultados.

A fiscalização já gerou sanções. O Diário Oficial de 16 de setembro publicou multas que somam R$ 29,9 milhões. Do total, R$ 23 milhões referem-se a falhas em nove estações elevatórias de esgoto na capital, apuradas em janeiro de 2025. Os outros R$ 6,9 milhões punem metas descumpridas em Ferraz de Vasconcelos. A Sabesp afirma que são decisões de primeira instância, que as estações operam normalmente e que o caso de Ferraz se refere ao contrato anterior à desestatização. Os valores devem ser depositados no Fundo de Apoio à Universalização do Saneamento (Fausp) em 30 dias, e cabe recurso.

O interior fora da Sabesp

O Universaliza SP prevê concessões nos municípios fora da área da Sabesp: 146 cidades, cerca de 9,3 milhões de habitantes, em quatro ou cinco blocos regionais. O governo estima cerca de R$ 30 bilhões (R$ 20 bilhões em investimentos), e o Trata Brasil registra R$ 29 bilhões. A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística prevê o leilão até o fim de 2026, depois das eleições, e a estrutura regulatória deve seguir a da Sabesp.

Análise: uma fotografia anterior ao novo ciclo

O ano-base do ranking é 2024, quando a privatização da Sabesp foi concluída. O grosso do novo ciclo de investimentos (R$ 15,2 bilhões em 2025, segundo o governo) ainda não aparece nos indicadores. Se o calendário se mantiver, a edição com dados de 2025 será o primeiro teste público do novo modelo.

O gargalo regulatório é nacional. Das 82 agências reguladoras cadastradas na Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), só 29 comprovaram aderência às normas de referência, e São Paulo tem duas delas, segundo o Trata Brasil. Contratos de décadas, com metas e fatores tarifários, exigem equipes capazes de medir resultado.

O que observar nos próximos meses

Três pontos definem os próximos capítulos. O leilão do Universaliza SP, previsto para o quarto trimestre de 2026, decide quem opera o saneamento de 146 municípios. Os recursos contra as multas da Arsesp mostrarão como a nova regulação aplica as sanções. E o próximo ranking, o primeiro com dados de 2025, indicará se os investimentos anunciados chegaram aos indicadores de tratamento e perdas.

Coluna: o resultado entregue importa mais que o volume investido

Por Thiago Giron Garcia, consultor em saneamento e regulação e colunista do SaneAgora.

O ranking confirma que São Paulo lidera, mas expõe uma distorção que o setor precisa encarar: medimos bem a cobertura e mal o resultado. O índice de tratamento usado na comparação mede o volume tratado em relação à água consumida. Ele não diz se o efluente final atende à qualidade exigida, e é isso que protege o rio.

O mesmo vale para as perdas. A capital cumpre o teto de 25% e, ainda assim, perde 310 litros por ligação ao dia, bem acima dos 216 de referência da Portaria 490. Um percentual dentro da meta pode esconder um volume absoluto elevado, e o regulador que olha só um dos parâmetros enxerga metade do problema.

Minha posição é que a regulação paulista, nova e com contratos longos, deve ser medida pelo que entrega. Metas de universalização, fatores tarifários de desempenho e auditoria independente dos dados autodeclarados precisam andar juntos, ou o investimento anunciado não vira esgoto tratado. A multa de setembro mostra que a fiscalização funciona, mas o desafio é fazê-la preventiva.

Esse rigor vale para quem regula também. Em Araçatuba, onde a agência que presido fiscaliza a concessão, cobertura e tratamento estão no nível dos melhores. Perdas no limite do teto e investimento de R$ 107 por habitante, menos da metade dos R$ 225 do PLANSAB, mostram que a agenda não terminou.

Transparência: Araçatuba, incluída na comparação, tem o serviço regulado pela AGRF-DAEA, agência presidida pelo colunista. Os números do município vêm de bases públicas (SINISA e Painel Saneamento Brasil). O colunista não tem vínculo com a Arsesp.

Metodologia

A compilação e a organização dos dados são da redação do SaneAgora. Os números do ranking vêm da tabela completa e do release do Trata Brasil. Os dados de Araçatuba vêm do Painel Saneamento Brasil (Trata Brasil) e do Instituto Água e Saneamento, com base no SINISA 2024. Os dados contratuais e regulatórios foram conferidos no contrato de concessão da Sabesp e nas decisões publicadas pela Arsesp.

Limites do levantamento

O ranking cobre só os 100 maiores municípios e não representa os 645 paulistas. Araçatuba não integra o ranking, e a comparação é indicador a indicador, sem nota ou posição oficial. O índice de tratamento é calculado em relação à água consumida, e a comparação com a meta de 90% do Marco Legal é aproximada. O investimento de Araçatuba (2024) não é comparável à média 2020-2024 das demais cidades da tabela. O SINISA substituiu o SNIS em 2023, e sua série ainda é curta, de modo que variações de posição devem ser lidas com cautela. Os dados da Sabesp são autodeclarados, e as fontes divergem sobre o Universaliza SP (146, 149 e 218 municípios) e sobre a concessão da Sabesp (371, 374 e 376 municípios).

Fontes: Instituto Trata Brasil e GO Associados (Ranking do Saneamento 2026: release e tabela completa; estudo Avanços do Marco Legal, jul/2026); Painel Saneamento Brasil (Trata Brasil); Instituto Água e Saneamento; contrato de concessão da Sabesp (Anexo VII) e Arsesp; Agência SP; Diário Oficial do Estado de 16/09/2026 (via TMC); Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (via Exame); BNDES e Radar PPP (via Trata Brasil).

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