A programação técnica do 37º Encontro Técnico AESabesp/Fenasan 2026 sinaliza uma mudança importante na agenda operacional do saneamento: meteorologia, inteligência artificial, modelagem e redução de perdas começam a ser tratadas de forma integrada como instrumentos de resiliência.
Nos últimos dias, a AESabesp divulgou painéis específicos sobre uso de dados climáticos, hidrologia, modelos computacionais e inteligência artificial, além de uma discussão dedicada à redução de perdas como estratégia de segurança hídrica e ação climática.
O ponto de convergência entre essas pautas é claro: operar sistemas de água e esgoto em cenário de maior variabilidade climática exige capacidade de antecipação, integração de dados e uso mais eficiente da infraestrutura existente.
Do monitoramento para a operação preditiva
Um dos painéis anunciados para a Fenasan 2026 pretende discutir como meteorologia, hidrologia, modelos computacionais e inteligência artificial podem apoiar decisões no setor de saneamento.
A tendência é relevante porque desloca o uso de dados climáticos de uma função predominantemente descritiva para uma lógica cada vez mais operacional. Em vez de apenas registrar chuvas, níveis de reservatórios ou ocorrências extremas, utilities podem integrar essas informações a sistemas de previsão, gestão de ativos e planejamento de contingência.
Na prática, isso pode melhorar decisões sobre produção de água, reservação, manobras de rede, resposta a eventos extremos, programação de manutenção e priorização de investimentos.
IA depende de dados e processos maduros
A inteligência artificial aparece com frequência crescente em discussões sobre eficiência operacional, mas seu valor depende da qualidade das bases utilizadas.
Modelos preditivos exigem séries históricas consistentes, telemetria confiável, integração entre sistemas e processos operacionais capazes de transformar alertas em ação. Sem esses elementos, a adoção de IA corre o risco de produzir mais dashboards do que decisões.
Para prestadores de saneamento, o desafio passa a ser organizar uma arquitetura de dados que conecte operação, manutenção, meteorologia, consumo, pressão, vazão, energia e ativos físicos.
Redução de perdas entra como estratégia climática
Outro painel anunciado pela AESabesp trata diretamente da redução de perdas de água como estratégia de segurança hídrica e ação climática.
A abordagem é relevante porque perdas físicas representam não apenas desperdício de água tratada, mas também energia, produtos químicos, capacidade de produção e custos operacionais incorporados ao volume que não chega ao usuário.
Reduzir perdas pode funcionar como uma forma de ampliar disponibilidade hídrica sem necessidade imediata de novos mananciais. Em regiões sujeitas a escassez, esse ganho pode ter valor equivalente ao de investimentos em expansão da oferta.
A agenda de perdas também se conecta à digitalização. Setorização, controle de pressão, macromedição, telemetria, detecção acústica, análise de vazões mínimas noturnas e modelos hidráulicos são exemplos de ferramentas que tornam a gestão mais precisa.
Clima, tecnologia e universalização começam a convergir
A Fenasan 2026 também reúne discussões sobre segurança jurídica, regulação, indicadores e universalização. Essa combinação mostra que resiliência não pode ser tratada apenas como questão ambiental.
Eventos extremos afetam continuidade, qualidade, custos e necessidade de investimentos. Portanto, decisões de adaptação climática tendem a repercutir em regulação econômica, planejamento de capital, metas contratuais e indicadores de desempenho.
Para reguladores, isso aumenta a importância de distinguir investimentos necessários para expansão daqueles voltados à resiliência, além de estabelecer critérios de acompanhamento e avaliação de resultados.
O que observar na Fenasan 2026
Mais do que a apresentação de tecnologias isoladas, o ponto central será verificar se o setor está avançando para modelos integrados de operação.
A combinação de meteorologia, hidrologia, IA e gestão de perdas pode criar uma lógica operacional mais preditiva, mas isso depende de interoperabilidade de dados, governança, capacidade técnica e indicadores que demonstrem ganho real de desempenho.
Para o SaneAgora, a agenda da Fenasan merece acompanhamento justamente porque reúne temas que antes eram tratados separadamente e agora começam a aparecer como partes de uma mesma estratégia de segurança hídrica e resiliência urbana.
Fontes
AESabesp. “37º Encontro Técnico/Fenasan 26: painel abordará o uso da meteorologia e de novas tecnologias para ampliar resiliência do saneamento”, publicado em 28 de setembro de 2026. Acessar fonte oficial.
AESabesp. “37º Encontro Técnico/Fenasan 2026: painel discutirá redução de perdas de água como estratégia de segurança hídrica e ação climática”, publicado em 28 de setembro de 2026. Acessar notícias da entidade.




