Tecnologias apresentadas em encontro da AESabesp combinam monitoramento de partículas, inteligência artificial e integração de dados para apoiar decisões em estações de tratamento de água e esgoto.
Transformação digital avança no tratamento de água e esgoto
O uso de automação, inteligência artificial e tecnologias avançadas de monitoramento está ampliando as possibilidades de controle operacional dos sistemas de saneamento. Ferramentas capazes de analisar imagens microscópicas, integrar informações de diferentes equipamentos e apoiar decisões em tempo real passaram a ocupar espaço crescente nas discussões sobre eficiência e qualidade dos serviços.
Essas aplicações foram apresentadas em 7 de outubro de 2026, durante mais uma edição do programa Momento de Tecnologia, promovido pela Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp).
O encontro contou com especialistas da empresa de tecnologia industrial Yokogawa, que abordaram soluções relacionadas à eficiência energética, ao monitoramento da qualidade da água e à utilização de dados para otimização de processos.
Entre as tecnologias discutidas estiveram o sistema de análise de partículas FlowCam e a plataforma de automação e gestão operacional OpreX.
A apresentação evidenciou uma tendência importante para o setor: a evolução de sistemas de tratamento baseados predominantemente em medições pontuais para modelos de operação apoiados por dados integrados, monitoramento contínuo e ferramentas analíticas.
Análise de imagens pode ampliar o monitoramento da qualidade da água
Um dos destaques do encontro foi a aplicação de tecnologias de microscopia e processamento de imagens para identificação e caracterização de partículas presentes na água.
O sistema FlowCam combina captura de imagens e recursos analíticos para auxiliar na avaliação de materiais particulados e organismos microscópicos.
Entre suas aplicações está a caracterização de algas e cianobactérias, cuja presença em mananciais representa um desafio para operadores de sistemas de abastecimento.
Dependendo das espécies e das condições ambientais, a proliferação desses organismos pode afetar características da água bruta, provocar alterações de odor e sabor e exigir ajustes nos processos de tratamento.
Algumas cianobactérias também possuem capacidade de produzir toxinas, o que torna seu monitoramento especialmente relevante para a proteção da saúde pública.
A análise automatizada de imagens pode contribuir para a identificação de alterações nas características das amostras, oferecendo informações adicionais às equipes responsáveis pelo controle da qualidade.
Como funciona a tecnologia?
Sistemas de análise de partículas por imagens permitem registrar características visuais dos materiais presentes nas amostras.
Os recursos analíticos podem auxiliar na classificação de partículas conforme parâmetros como tamanho, forma e características ópticas.
Na apresentação da AESabesp, também foram abordadas aplicações de fluorescência e ferramentas de processamento de imagens voltadas à caracterização de organismos presentes em água doce.
O software Visual Spreadsheet, associado ao FlowCam, foi citado como instrumento de apoio à análise e organização dos resultados.
Essas informações podem contribuir para identificar mudanças nas condições dos mananciais e subsidiar decisões operacionais.
Entretanto, a utilização dessas tecnologias não elimina a necessidade de análises laboratoriais complementares, validação metodológica e observância dos parâmetros exigidos pela legislação sanitária.
Monitoramento antecipado pode melhorar decisões nas ETAs
Nas Estações de Tratamento de Água (ETAs), a qualidade da água bruta pode apresentar variações relacionadas a chuvas intensas, estiagens, alterações de temperatura e mudanças nas condições ambientais dos mananciais.
Essas oscilações influenciam diretamente o desempenho dos processos de coagulação, floculação, decantação, filtração e desinfecção.
Quanto maior a capacidade de identificar mudanças nas características da água captada, melhores podem ser as condições para ajustar os processos de tratamento.
O monitoramento avançado pode auxiliar na identificação de tendências e no planejamento de intervenções antes que determinadas alterações comprometam o desempenho operacional.
Isso é especialmente relevante em sistemas que utilizam mananciais superficiais sujeitos a variações sazonais de qualidade.
A adoção dessas ferramentas, contudo, deve considerar as características de cada sistema, a representatividade das amostras e a integração dos resultados aos procedimentos de controle existentes.
Inteligência artificial e integração de dados
Outro tema apresentado foi a utilização de plataformas digitais para integrar informações operacionais.
A tecnologia OpreX, abordada durante o encontro, reúne aplicações relacionadas à automação industrial, controle de processos, monitoramento, gestão de dados e ferramentas analíticas.
No saneamento, a integração dessas informações pode contribuir para uma visão mais abrangente do funcionamento das unidades operacionais.
Em sistemas convencionais, diferentes equipamentos frequentemente produzem dados que permanecem distribuídos entre instrumentos, supervisórios, planilhas e sistemas administrativos.
Essa fragmentação pode dificultar a identificação de tendências e a análise conjunta de variáveis.
Plataformas integradas buscam reduzir essas limitações, permitindo relacionar informações sobre vazão, pressão, consumo de energia, características da água e desempenho de equipamentos.
A inteligência artificial pode ser empregada para identificar padrões, apoiar previsões e auxiliar na avaliação de alternativas operacionais.
O principal benefício potencial está na capacidade de transformar grandes volumes de dados em informações úteis para a tomada de decisão.
A qualidade dessas recomendações, entretanto, depende da confiabilidade dos sensores, da consistência dos registros e da adequação dos modelos utilizados.
Eficiência energética continua sendo desafio estratégico
O consumo de energia elétrica representa um componente relevante dos custos operacionais dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário.
Estações elevatórias, sistemas de bombeamento, equipamentos eletromecânicos e processos de aeração podem demandar quantidades significativas de energia.
Nas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs), a aeração dos processos biológicos frequentemente constitui uma das principais parcelas do consumo energético, dependendo da tecnologia empregada.
Ferramentas de automação podem contribuir para ajustar o funcionamento de equipamentos conforme as condições efetivas de operação.
Entre as aplicações possíveis estão o controle de bombas, a otimização de sistemas de aeração e o acompanhamento de indicadores específicos de consumo.
A integração entre instrumentação, automação e análise de dados pode facilitar a identificação de desperdícios e oportunidades de melhoria.
Entretanto, não é tecnicamente adequado presumir que a instalação de inteligência artificial ou de uma plataforma digital produza, automaticamente, redução de custos.
Os resultados dependem de fatores como condições iniciais de operação, qualidade da instrumentação, estratégias de controle, capacitação das equipes e manutenção dos equipamentos.
A avaliação econômica deve considerar investimentos, custos de integração, licenciamento, treinamento e manutenção ao longo do ciclo de vida da solução.
Aplicações também alcançam o tratamento de esgoto
Embora parte das tecnologias apresentadas esteja diretamente relacionada ao monitoramento da água, a transformação digital também possui aplicações relevantes no tratamento de efluentes.
Nas ETEs, o desempenho dos processos depende de variáveis como vazão afluente, carga orgânica, concentração de oxigênio dissolvido, temperatura, pH e características da biomassa.
O acompanhamento integrado desses parâmetros pode auxiliar na identificação de alterações operacionais.
Em sistemas de lodos ativados, por exemplo, ferramentas analíticas podem contribuir para avaliar tendências relacionadas ao consumo de oxigênio, à estabilidade do processo biológico e à eficiência de remoção de poluentes.
A automação também pode apoiar o controle de equipamentos eletromecânicos e a organização dos registros operacionais.
No entanto, aplicações em ETEs exigem validação específica, considerando as características dos efluentes, a tecnologia de tratamento e as condições de operação.
A existência de recursos digitais não substitui o conhecimento técnico das equipes responsáveis pelos processos.
Desafios para a adoção de novas tecnologias
A digitalização do saneamento envolve desafios que ultrapassam a aquisição de equipamentos e softwares.
Um dos principais é a integração entre tecnologias novas e sistemas operacionais já existentes.
Também é necessário considerar a confiabilidade da infraestrutura de comunicação, a proteção dos dados e a segurança cibernética.
Sistemas de automação conectados exigem procedimentos de controle de acesso, manutenção, atualização e resposta a incidentes.
Outro aspecto importante é a qualificação dos profissionais.
A adoção de ferramentas analíticas demanda equipes capazes de interpretar resultados, identificar limitações dos modelos e relacionar informações digitais às condições reais das unidades operacionais.
Como avaliar uma tecnologia antes de contratar?
Para prestadores e gestores públicos, a análise de soluções tecnológicas deve considerar critérios técnicos e econômicos verificáveis.
Entre os aspectos relevantes estão a compatibilidade com a infraestrutura existente, os requisitos de instalação, a disponibilidade de suporte técnico e a possibilidade de integração com outros sistemas.
Também devem ser avaliadas a qualidade dos dados produzidos, a necessidade de calibração e os custos de manutenção.
Projetos-piloto podem contribuir para verificar o desempenho das tecnologias em condições reais de operação.
Indicadores definidos previamente permitem comparar os resultados obtidos com a situação anterior à implementação.
Essa abordagem reduz o risco de decisões baseadas exclusivamente em apresentações comerciais ou projeções não demonstradas.
Experiências internacionais e validação de resultados
Durante o encontro, os representantes da Yokogawa mencionaram uma experiência desenvolvida em Wichita Falls, no Texas, Estados Unidos.
Segundo o relato apresentado, a aplicação de tecnologias de monitoramento contribuiu para melhorias relacionadas à análise operacional e ao controle de custos.
O exemplo ilustra o potencial de ferramentas digitais, mas seus resultados não devem ser automaticamente generalizados para sistemas brasileiros.
Diferenças de infraestrutura, características da água, processos de tratamento, condições regulatórias e custos operacionais podem influenciar significativamente o desempenho das soluções.
Para uma avaliação independente, são necessários indicadores comparáveis, informações metodológicas e dados sobre as condições anteriores e posteriores à implementação.
A experiência internacional pode servir como referência, desde que acompanhada de análise técnica contextualizada.
Saiba em 30 segundos
O que aconteceu?
A AESabesp promoveu um encontro técnico sobre automação, monitoramento e inteligência artificial aplicados ao saneamento.
Quais tecnologias foram apresentadas?
O sistema FlowCam, voltado à análise de partículas por imagens, e a plataforma OpreX, relacionada à automação e integração de dados.
Onde podem ser utilizadas?
Em aplicações de monitoramento da qualidade da água, controle de processos e gestão operacional de sistemas de saneamento.
A inteligência artificial garante economia?
Não. Os resultados dependem das condições de operação, da qualidade dos dados e da implementação das soluções.
Qual é o principal desafio?
Integrar tecnologia, conhecimento técnico e indicadores confiáveis para produzir melhorias efetivamente mensuráveis.
Por que isso importa
A transformação digital do saneamento não deve ser medida apenas pela quantidade de sensores, softwares ou plataformas instaladas.
Seu valor está na capacidade de melhorar a qualidade dos serviços, reduzir riscos operacionais, apoiar decisões e utilizar os recursos disponíveis com maior eficiência.
O avanço das tecnologias de análise de imagens, automação e inteligência artificial amplia as possibilidades de monitoramento e controle dos sistemas de tratamento.
Entretanto, sua incorporação precisa ser acompanhada de critérios técnicos, validação de desempenho e avaliação econômica.
Para prestadores, reguladores e gestores públicos, a questão central deixa de ser simplesmente quais tecnologias estão disponíveis.
O desafio passa a ser identificar quais soluções produzem resultados verificáveis, em quais condições e a que custo.
FONTES E REFERÊNCIAS
AESabesp — 7 de outubro de 2026
Momento de Tecnologia AESabesp: Yokogawa apresenta tecnologias para eficiência energética e qualidade da água no saneamento.
AESabesp — Programação do Momento de Tecnologia
Registro do encontro realizado em 7 de outubro de 2026, às 10h, em formato online.
Yokogawa
Informações institucionais sobre automação industrial, controle de processos e soluções digitais.
Nota editorial: As tecnologias mencionadas foram apresentadas em evento técnico com participação de fornecedor. As aplicações descritas não constituem recomendação comercial do SaneAgora. Alegações específicas de economia ou desempenho exigem comprovação independente.




